Palavras….

Dioglas André Marian Voltz – Psicólogo do Nap – Psicólogo Clinico – CRP/RS 07/32186contato@napvs.com.br

Há palavras que de tão gastas já não dizem!

            Em 2016 a jornalista Eliane Brum apontou em um texto que “a tragédia brasileira é que as palavras existem, mas já não dizem”. Passados quatro anos, tal reflexão, infelizmente, concretiza-se vertiginosamente. Palavras brotam empalhadas.

            Não importa a forma utilizada para expressão – escrita, falada, pichada, cantada, etc. – palavras surgem gastas, anêmicas, despedaçadas, podres, secas, diante de escutas que lhes negam acolhimento/colo. Escutar é dar colo as palavras. E, não queiram os ouvidos monopolizar tal sentido, pois escutar se faz com o corpo todo. No entanto, os dias acusam uma temporalidade acentuadamente reativa de expressões “radioativas” – E daí?

A impermeabilidade dos sujeitos mata palavras de sede nos falatórios sem escuta. Deprime observar: quando ditas, não encontram o outro e despencam ao chão, espatifando-se pelo impacto ou pisoteadas por quem já não ‘escuta’ por onde caminha.

Monólogo fantasiado de diálogo onde o “eu” abafa o “nós” são ocasiões do empalhamento das palavras. Sendo-as pronunciadas exclusivamente pelo cálculo racional da autopromoção, acabam dissecadas por desafetadamente.

Portanto, palavras que deixam de dizer apontam o processo de “coisificação”; lembrando o dito “estamos trocando nossa humanidade por coisas” (Ailton Krenak). Onde há insensibilidade, a reciprocidade, arte-curativa das palavras, é cruelmente prejudicada já que sua transmissão depende do afeto por ela envolvido. Um “te amo” pode ser insípido enquanto um “oi” pode conter todos sabores. Como humanos temos o dever de resgatá-las, afetivamente partilhando-as em resistência. É pela partilha que dizem e vivem para além, sendo “metade de quem a pronuncia e metade de quem escuta” (Montaigne).

Publicado por revistavitrini

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